Prezado Canali,
Citando a sua mensagem:
"Quanto a preocupa=E7=E3o de deixar a l=EDngua ****tuguesa igual ou
aproximada (em
seus princ=EDpios b=E1sicos) `a falada em ****tugal e suas ex-colo^nias,
acho uma
tremenda de uma besteira."
Eu discordo. Os argentinos **** exemplo nao te^m nenhum problema em
adotar uma lingua padrao escrita que seja proxima do espanhol falado na
Espanha, embora no dia-a-dia, eles continuem a dizer "vos sabe's" ou
"vos so's" ao inves de "tu' sabes" ou "tu' eres", continuem a
pronunciar /KaZe/ ao inves de /Kalle/ , ou continuem a usar "Ustedes"
em situacoes em que os espanhois europeus usariam "vosotros". **** que
no Brasil nao podemos ter a mesma atitude, ou seja, manter um padrao
escrito proximo ao "****tugues internacional" (uniformizado inclusive
pelo acordo ortografico) ao mesmo tempo que aceitamos no dia-a-dia a
linguagem coloquial falada ? **** que motivo as pessoas deveriam
escrever exatamente como falam (o que alias, e' uma utopia) ? Os
milhoes de habitantes dos paises arabes nao falam como escrevem, nem
tampouco os milhoes de chineses, nem tampouco os suicos, **** que com
os brasileiros teria que ser diferente ?
Na verdade, o unico exemplo concreto que eu conheco de uma populacao
colonial que falava originalmente uma lingua europeia mundialmente
difundida e decidiu substitui-la **** uma lingua padrao escrita distinta
baseada na maneira "como se falava" sao os africaneres, ou seja, os
descendentes (brancos) dos colonizadores holandeses da Africa do Sul.
Ironicamente, na nova Africa do Sul pos-apartheid, a identidade
linguistica da minoria africaner estaria muito mais segura se essa
minoria ainda fosse vista como parte da comunidade mundial de lingua
holandesa (que inclui os Paises Baixos, a Belgica, o Suriname, Aruba e
as Antilhas Neerlandesas), ao inves de ter historicamente insistido em
substituir o holandes pelo afrikaans **** motivos nacionalistas.
"Elsewhere", seja no Mexico, na Argentina, ou no Quebec, o que se ve e'
que as populacoes coloniais transplantadas preferiram historicamente
manter a unidade com a lingua escrita do "pai's-mae" (**** exemplo, a
Espanha ou a Franca), embora a lingua falada divergisse do padrao
europeu. No caso do Brasil ou dos Estados Unidos, o processo foi um
pouco mais adiante no sentido de que tanto o ****tugues brasileiro
quanto o ingles americano desenvolveram normas escritas proprias, mais
ou menos independentes das respectivas normas europeias, mas tomando
sempre o cuidado de manter as duas normas, americana e europeia,
suficientemente proximas de forma a garantir uma unidade linguistica
que era/e' vantajosa do ponto de vista economico, cultural e
geopolitico. Assim , prezado Canali, podemos ter um frances parisiense
e um frances "quebecois"; um espanhol castelhano, um espanhol mexicano
ou um espanhol argentino; um ingles britanico ou um ingles americano;
um ****tugues europeu ou um ****tugues brasileiro, e, ao mesmo tempo,
todos eles podem ser vistos como ramos respectivamente de um mesmo
frances, espanhol, ingles ou ****tugues internacionais.
A questao-chave para no's, ao meu ver, nao deveria ser entao criar um
"brasileiro" que fosse visto como uma lingua separada do ****tugues,
mas sim usar toda a influencia cultural, demografica e economica do
Brasil para que aquilo que e' especificamente "brasileiro" em termos
de lingua se reflitisse tambem no que se ensina como aceitavel no
****tugues internacional: **** exemplo, dizer "ele se arrependeria" ao
inves de "ele arrepender-se-ia"; "cheguei em casa" ao inves de
"cheguei `a casa", "assistir o jogo" ao inves de "assistir ao jogo", ou
"eu conheco voce" (ja' aceito como correto em algumas gramaticas
brasileiras) ao inves de "Conheco-o", com "o" denotando aqui a 2a
pessoa. Eu nao iria tao longe, ****em, a ponto de aceitar "eu conheco
ele" no ****tugues internacional ja' que essa frase, mesmo no ****tugues
brasileiro escrito, e' considerado inapropriada (nenhum jornal
brasileiro usa, **** exemplo, "ele" **** "o" e nenhum vestibulando
consciente faria isso **** exemplo na prova de redacao da Fuvest !).
Marcelo Bruno
PS: E' ironico ver como os mesmos autores que propoem substitutir o
****tugues pelo "brasileiro", fazem-no em textos escritos em ****tugues
impecavel ("bookish" como se diria aqui nos Estados Unidos !). Os
"regte Afrikaners" (africaneres autenticos) pelo menos tinham a
conviccao de escrever em afrikaans e editar livros, jornais, biblias,
etc... na lingua que eles queriam promover.


|