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=?ISO-8859-1?Q?As_l=EDnguas_crioulas_de_S=E3o_Tom=E9_e_Pr=EDncipe?=

by s_ribeiro@[EMAIL PROTECTED] (Fernando de Sousa Ribeiro) May 20, 2005 at 04:43 PM

Está patente no sítio da BBC uma entrevista com o linguista holandês
Tjerk Hagemeijer, sobre os idiomas falados em S. Tomé e Príncipe, que
me parece muito interessante: http://tinyurl.com/d4nr5

É curioso verificar que o entrevistado só chama "santomé" ao crioulo
mais falado, nunca referindo um seu outro nome, que é "forro". Esta
outra designação vem da expressão "preto forro", que era aplicada aos
escravos libertos.

Quanto à pequena ilha de Ano Bom, que pertence à Guiné Equatorial, vi
há poucas semanas, no canal de televisão **** cabo RTP Memória, uma
re****tagem feita na ilha há cerca de 20 anos **** Brandão Lucas (que
até nasceu em S. Tomé e tudo), onde diversos habitantes falaram (em
espanhol) do seu crioulo e davam exemplos de palavras e expressões de
origem ****tuguesa.

Como a entrevista não vai ficar sempre no sítio da BBC, passo a copiar
aqui o seu conteúdo:

-----

As línguas crioulas de São Tomé e Príncipe 
  
Quatro crioulos coexistem no arquipélago: o santomé, o angolar (falado
no extremo sul e no norte da ilha de São Tomé) o lung'iyé, falado na
ilha do Príncipe, para além do crioulo cabo-verdiano, falado nas duas
ilhas. Em entrevista a São Lima, o linguista holandês, Tjerk
Hagemeijer, analisa a sua origem e estado actual.

- Apesar da sua considerável homogeneidade social, São Tomé e Príncipe
foi **** si baptizada como ilhas de Babel, devido à coexistência de
várias línguas crioulas.

Tjerk Hagemeijer - As diferentes fases históricas do arquipélago
levaram ao contacto e surgimento de diferentes línguas.

Quando os ****tugueses chegaram, na primeira fase, no século XVI,
finais do século XV fizeram o resgate de escravos na costa africana.

Da necessidade de comunicação entre escravos e colonizadores, surgiu
uma nova língua, uma língua crioula que é o crioulo de São Tomé.

A partir desse crioulo de São Tomé houve como que uma difusão para a
ilha do Príncipe em que se autonomizou um outro crioulo - o lunguyé
que tem a mesma origem que o crioulo de São Tomé.

Houve a difusão também para o Ano Bom, do crioulo local, o fa d'ambô. 

Desde o princípio houve escravos que fugiram para o mato e embora haja
teses diferentes, assume-se em princípio que formaram a comunidade
angolar . ****tanto a partir do contacto entre o ****tuguês e línguas
africanas, surgiram quatro línguas crioulas no golfo da Guiné: o
santomé e o Angolar na ilha de São Tomé, o lung'iyé, na ilha do
Príncipe e o fa d'ambô, na ilha de Ano Bom.

É possível definir o momento em que a primeira dessas línguas, o
crioulo santomé se terá formado?

Pelos indícios linguisticos e históricos, a formação dessa nova língua
foi muito rápida. Ter-se-á formado em décadas, uma ou duas gerações,
****tanto a cristalização das quatro línguas terá acontecido
provavelmente ainda durante o século XVI.

Para além da língua ****tuguesa, que língua ou línguas africanas estão
na base da formação dessas línguas crioulas?

Está o ****tuguês renascentista, do século XVI (o que se pode ver em
palavras muito arcaicas, ocorre-me o exemplo kudji, do ****tuguês
antigo acudir) e estão e línguas africanas.

O que eu penso é que na primeirissima fase, a fase da habitação, em
que ainda não se produzia cana de açúcar, os escravos eram
maioritariamente provenientes da Nigéria, mais especificamente do
antigo reino do Benin, que fica perto do antigo rio Formoso, hoje rio
Benin.

Esses escravos eram da etnia Edo e terão, juntamente com o ****tuguês,
dado origem a essa nova língua.

Essa é a base inicial. Mais tarde, o tráfico de escravos passou mais
para o sul, para áreas banto como o Congo, Angola, e essas línguas
também têm algum reflexo nos crioulos do golfo da Guiné.

- Que relação estabelece entre a história económica do arquipélago e o
percurso e evolução das línguas crioulas?

TH - Penso que a zona Edo, da Nigéria, do então reino do Benin, é
fundamental.

Mas com a introdução da cultura da cana do açúcar as im****tações de
zonas banto, ****tanto kikongo e kimbundo, tornaram-se **** massiças,
até ****que preferiam este tipo de escravos que eram mais robustos,
etc.

Ora, o mais provável é que a crioulização, a formação da nova língua
já tivesse acontecido.

Mas podemos ver ainda nos crioulos traços de línguas banto, palavras,
certos traços fonológicos, embora não já tão crucial para a base
estrutural da nova língua que surgiu e se difundiu nas ilhas de São
Tomé e Príncipe e Ano Bom.

- Em que medida é o Angolar um caso à parte?

TH - É e não é. **** tudo o que sabemos hoje, o Angolar é de facto uma
comunidade que viveu num certo isolamento até um período relativamente
tardio, talvez até ao século XVIII, XIX.

Mas não é um caso tão à parte ****que todos os indícios apontam para o
facto do Angolar ser uma língua crioula que deriva do proto- crioulo
do golfo da Guiné ou se se quiser, do santomé.

****tanto eram escravos que fugiam para o mato, já falavam uma forma
desse proto - crioulo e claro que essas fugas se tornaram mais
massiças quando se introduziu o sistema da cana do açúcar.

Verificamos **** isso que o angolar tem muito mais léxico do kimbundo
de Angola.

Mas a origem, a génese são as mesmas para todos os crioulos. 

- Há quase mais estudos sobre as línguas crioulas do que textos nessas
mesmas línguas. Que explicações podem ser encontradas?

TH - Talvez uma explicação im****tante seja o facto de nunca se ter
dado muita atenção a essas línguas dentro do espaço de STP e ao nível,
digamos, estatal.

Como património cultural im****tante era necessário estabelecer uma
ortografia, instrumentalizá-la, introduzir eventualmente o estudo
dessas línguas e culturas nas escolas.

Há de facto mais académicos interessados nessas línguas até pelo
próprio de crioulização, um processo muito interessante, que toca em
aspectos como a aquisição da língua, como é que uma língua 'nasce',
quais são as semelhanças entre a linguagem de uma criança que aprende
uma nova língua e uma nova língua que surge do contacto entre o
****tuguês e línguas africanas.

Quanto a STP, **** razões económicas, pelo facto de ser uma nação
independente há relativamente pouco tempo, nunca se deu muito espaço a
essas línguas.

Apesar de serem as línguas cantadas, as línguas faladas, etc, o
****tuguês é obviamente a língua de unidade nacional e a língua
dominante e não se conseguiu até agora sair desse padrão linguístico.

Ora, era necessário fazer algo nesse sentido ****que o crioulo do
Príncipe, o lung'iyé, está claramente em vias de extinção, é um
crioulo falado hoje **** muito poucas pessoas, tal como o angolar.

Embora o angolar seja falado **** mais pessoas, estas misturam-se com
os falantes do santomé, falam santomé, falam o ****tuguês, há a
influência dos media, há vários factores que concorrem para o
desaparecimento destas línguas.

Também o crioulo do Ano Bom está neste momento ameaçado, tem um número
muito reduzido de falantes

- Os falantes quer do lunguyé quer do ngolá ( angolar) falam santomé,
há como que uma absorção...

TH - O santomé é, de todos esses crioulos, o que melhor resiste no
espaço de São Tomé e Príncipe.

E é preciso ter em conta que o crioulo do Ano Bom tem também neste
momento um número muito reduzido de falantes.

- Um alto dirigente são-tomense afirmou que enquanto o teatro e a
música forem veículos do santomé, a língua não morrerá. Subscreve essa
convicção?

TH - Acho que esta é uma forma muito redutora de rotular o património
cultural, linguístico neste caso.

Alguma verdade haverá nesta afirmação ****que de facto as pessoas
continuam a falar e a cantar santomé.

Mas precisamente **** ser tão falada, a língua mereceria outro destaque
na sociedade são-tomense.

No caso do lunguyé ou do angolar, será extremamente dificil
recuperar-se o que já se perdeu.

E enquanto se vai dando prioridade a outros assuntos, vão morrendo
todos os dias pessoas que falam estas línguas até chegar o dia em que
morrerá o último falante e a língua desaparece.

E ficamos depois com alguns estudos académicos e nada mais.

Para uma sociedade crioula como São Tomé e Príncipe, isto representa
um desperdício enorme do seu próprio património.

- Que medidas defenderia, qual deveria ser a acção dos media, ****
exemplo?

TH - Não é preciso fazer-se muito, o que é preciso é começar a fazer.

Antes de tudo é preciso criar, estabelecer, uma ortografia oficial.

- É autor de uma uma proposta de autografia, acaba de fundar um site
sobre as línguas crioulas de São Tomé e Príncipe. Qual é o grau de
interacção com as autoridades para as convencer da necessidade de se
adoptar uma ortografia?

TH - Infelizmente não tem havido facilidades nesse sentido.

Houve, em 2001, um colóquio sobre línguas nacionais e decidiu-se criar
uma comissão em defesa das línguas.

Infelizmente acabou **** ficar tudo em águas de bacalhau.

E o projecto era para que se começasse a fazer algo e se continuasse a
fazer, mesmo que fosse pouco.

**** exemplo no caso de Cabo Verde, criou-se uma ortografia oficial que
entretanto foi revista várias vezes.

Não faz mal que a primeira ortografia não seja a mais bem sucedida, o
que é preciso é ir-se fazendo de modo a haver apoio à implementação de
futuras políticas.

Essas políticas passam pelo registo escrito destas línguas, ****
recolhas culturais e pela defesa de todo o património associado às
línguas. Isto não tem acontecido.

É preciso também ter-se em conta que muitas vezes fazemos as recolhas,
os trabalhos académicos e não damos nada a São Tomé.

É necessário que haja uma interacção entre os académicos e a sociedade
civil para haver uma consciência mais lata em torno desta questão.

- Voltando à sua proposta de ortografia...

TH - Sim, existe o Ferraz que tem talvez o mais famoso livro sobre o
crioulo de São Tomé e que propôs, com base nas recolhas que fez na
altura, uma ortografia que talvez não seja a mais simples.

Depois eu e o Caustrino Alcântara fizemos uma ortografia com base nas
recolhas que fizemos e com base na necessidade de se ter uma escrita
uniforme.

Ao longo do nosso trabalho, essa ortografia nasceu quase que
espontâneamente.

É muito semelhante a uma ortografia escrita **** Philippe Maurer que
escreveu a gramática do angolar e está actualmente a escrever a
gramática do lung'iyé do Príncipe.

O crioulo de São Tomé é muito diferente do ****tuguês.

Quando eu faço ouvir uma cassete com santomé bem falado, as pessoas
não compreendem praticamente nada, talvez uma ou outra palavra.

Julgo então que o mais fácil nesta fase é ter uma ortografia que se
baseie na fonética da língua, um fonema para um grafema, a
correspondência entre uma letra e um som.

No caso de Cabo Verde existe uma escrita que é um pouco fonética e um
pouco etimológica, isto é, tendo em conta a origem da palavra.

Mas no caso do santomé, se pegarmos **** exemplo na palavra kudji,
acudir, responder, não faz muito sentido tentar-se escrever como o
****tuguês ****que a palavra já não é de forma alguma falada com o
****tuguês.

Poderiamos referir outro exemplo, a palavra ligui, que vem do
****tuguês erguer.

É ****tanto uma língua bastante afastada do ****tuguês, para não falar
na grande percentagem de vocábulos de origem africana.

Como é que se os iria escrever, tendo em conta uma etimologia que
muitas vezes nem sequer é conhecida ?

Há uma série de problemas que convergem para uma escrita fonética.

Um dos problemas com que nos deparamos foi a proliferação de acentos.

- E de que modo resolveu esse problema?

TH - Criando regras. **** exemplo, existe o som ê e o som é.

Para simplificar, podemos partir do princípio de que marcamos apenas o
acento circunflexo e quando não há qualquer acento sabemos que é uma
consoante aberta.

Penso que não há necessidade de se usar muitos acentos.

- Quão pacífico ou conflitual é o relacionamento entre a língua
****tuguesa e as línguas crioulas em São Tomé e Príncipe?

TH - Existe o ****tuguês padrão, de ****tugal, que é falado em São Tomé
e existe também o ****tuguês de São Tomé.

O que se verifica hoje e provavelmente sempre se verificou é a
influência de uma coisa sobre a outra e vice-versa.

O ****tuguês de São Tomé tem traços crioulos muito, muito claros e em
alguns casos está bastante longe do ****tuguês de ****tugal.

O que eu penso é que no ****tuguês típico de São Tomé, há uma
infiltração da língua crioulo a todos os níveis, ao nível do som, ao
nível do léxico, ao nível da estrutura.

O contrário já não é tão verdade, o ****tuguês não tem um impacto tão
significativo sobre o santomé.

Ao nível do léxico há alguma influência, mas não ao nível da
estrutura.
 




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